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Marcelo Bigardi Palestrante e treinador de liderança
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Deu dez passos e voltou dois? O ingrato só enxerga os dois

Carreira e recomeço8 min de leitura Por Marcelo Bigardi

Você deu dez passos, teve que voltar dois, e passou a semana inteira remoendo os dois. Enquanto isso, os oito continuam exatamente onde estavam — só que você parou de olhar para eles.

Existe uma diferença enorme entre o profissional grato e o ingrato, e ela não tem nada a ver com ser positivo ou otimista. Tem a ver com o que cada um consegue enxergar diante de um revés.

Grato pelo que já foi. Inquieto pelo que ainda vem.O Poder do Recomeço

Toda trajetória tem passos para trás

Um projeto que não deu, um trimestre fraco, uma contratação errada, uma decisão que custou caro. Isso não é sinal de rota errada — é o custo normal de qualquer percurso que envolva risco.

O ponto não é fingir que os dois passos para trás não existem. Negar o revés é tão improdutivo quanto se afogar nele, e costuma produzir o mesmo resultado: a lição não é extraída.

O ponto é conseguir enxergar, ao mesmo tempo, os oito que você já deu. As duas informações são verdadeiras e só uma costuma ser acessada.

O foco viciado no que faltou

O ingrato tem uma característica cognitiva específica: ele olha para o revés e conclui que tudo dá errado, ignorando completamente o terreno já conquistado.

Não é má-fé. É um viés de atenção. O cérebro dá mais peso à perda do que ao ganho equivalente — é um mecanismo antigo e útil para sobrevivência, e péssimo para avaliação de trajetória.

O efeito prático é que a pessoa desanima, desiste e contamina o time ao redor. E contamina mais rápido do que o contrário, porque a leitura negativa soa realista e a positiva soa ingênua.

O que o grato faz de diferente

Ele sente a dor dos dois passos, porque doer dói. Não há estoicismo aqui, e fingir que não incomoda seria apenas outra forma de não olhar.

A diferença é que ele não perde de vista o avanço real que já aconteceu. Consegue segurar as duas informações ao mesmo tempo, o que é uma habilidade cognitiva e não um traço de personalidade.

Essa leitura não é ingenuidade. É o que mantém a pessoa de pé e capaz de recomeçar depois de um tropeço — porque recomeçar exige energia, e energia vem da percepção de que o esforço anterior produziu alguma coisa.

Gratidão como competência

Vale reposicionar a palavra, porque ela costuma soar como virtude moral e aqui é outra coisa. Gratidão, no sentido profissional, é competência de perspectiva.

É a capacidade de fazer um balanço honesto — que inclui o que faltou, mas não apaga o que foi conquistado. Um balanço que apaga metade dos dados não é honesto, é enviesado, e decisões tomadas sobre dados enviesados são ruins por definição.

Quem só vê o que faltou não tem energia para recomeçar. Quem vê o todo, tem. E essa diferença de combustível aparece no trimestre seguinte, em resultado.

Como aplicar num time

  • Faça o balanço em duas colunas. O que não saiu e o que saiu. Obrigue o preenchimento das duas antes de qualquer conclusão.
  • Comece a retrospectiva pelo que funcionou. A ordem muda o tom da reunião inteira, e o que é dito primeiro ancora o resto.
  • Registre marcos. Times esquecem o que atravessaram com uma velocidade impressionante. Sem registro, cada dificuldade parece a primeira.
  • Nomeie o avanço em números. "Melhoramos" é opinião. "Saímos de dez para doze" é dado, e dado não é discutível.
  • Não confunda gratidão com satisfação. Reconhecer o avanço não significa aceitar o patamar.

Grato e satisfeito são coisas diferentes

Esse é o ponto que fecha o raciocínio e evita o mal-entendido mais comum. Dá para ser profundamente grato pelo caminho e, ao mesmo tempo, recusar-se a se acomodar nele.

Aliás, é isso que separa quem continua crescendo de quem estacionou achando que já chegou. O grato reconhece cada passo: sabe de onde veio, sabe o que custou, honra o que já foi conquistado.

O insatisfeito no bom sentido sabe que ainda não é o fim, que tem mais para construir, que acomodar seria desperdiçar potencial. As duas coisas juntas são combustível; separadas, uma vira arrogância e a outra vira amargura.

O balanço que evita os dois extremos

Existe uma forma simples de fazer isso sem cair nem no otimismo cego nem na autocrítica destrutiva: o balanço em duas colunas, sempre preenchidas na mesma sessão.

De um lado, o que não saiu e por quê. Do outro, o que avançou, em números quando possível. A regra é que nenhuma conclusão pode ser tirada antes de as duas colunas estarem cheias.

Isso resolve o viés porque impede o acesso seletivo. A maioria das pessoas consegue listar dez frustrações do ano em dois minutos e trava ao tentar listar três avanços — não porque não existam, mas porque nunca foram registrados.

E vale fazer isso em time, no fim de cada trimestre. A retrospectiva que começa pelo que funcionou produz uma reunião completamente diferente da que começa pelo que falhou, com exatamente os mesmos dados sobre a mesa.

Para levar para a semana

Faça o balanço: quais foram os oito passos que você deu este ano e andou esquecendo por causa dos dois para trás? Escreva pelo menos três.

E guarde o princípio: nunca fique tão satisfeito a ponto de parar, nem tão insatisfeito a ponto de não honrar o caminho. Grato pelo que já foi, inquieto pelo que ainda vem. É assim que se recomeça — de novo e de novo.

E existe uma aplicação prática que costuma mudar a energia de uma equipe inteira: comece toda retrospectiva listando o que avançou, antes de listar o que falhou. A ordem não é detalhe de cortesia. O que é dito primeiro ancora a leitura de tudo o que vem depois, e uma reunião que abre pelo fracasso produz conclusões diferentes de uma que abre pelo avanço, com exatamente os mesmos dados sobre a mesa. Quem conduz decide qual das duas versões o time vai levar embora.

Há também um efeito sobre quem está ao redor. O profissional que só enxerga o que faltou contamina o time com uma leitura que parece realista e é apenas incompleta. Numa reunião, essa leitura vence facilmente a leitura equilibrada, porque soa mais séria. Quem lidera precisa estar atento a isso: não para proibir a crítica, que é necessária, mas para garantir que o balanço apresentado contenha as duas colunas. Um time que só ouve o que deu errado conclui, em poucos meses, que nada dá certo ali.

E vale guardar o princípio como critério de leitura, não como frase de efeito. Diante de qualquer revés, force as duas perguntas na mesma sessão: o que eu perdi e o que eu mantive. Responder só a primeira é o comportamento padrão, e o comportamento padrão é justamente o que produz a leitura incompleta que desanima times inteiros sem que ninguém perceba de onde veio.

Marcelo Bigardi · palestrante, treinador de liderança e autor de 34 livros

Este texto foi desenvolvido a partir de o livro O Poder do Recomeço, de Marcelo Bigardi.

Esse é o tipo de conversa que ele leva para dentro das empresas

Palestras, treinamento in company e mentorias sobre liderança, maturidade e mentalidade.