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Marcelo Bigardi Palestrante e treinador de liderança
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A gente virou especialista em desculpa

Carreira e recomeço8 min de leitura Por Marcelo Bigardi

Tem gente que ganharia medalha em olimpíada de desculpa. E o detalhe que torna isso fascinante é que a mesma criatividade que daria para resolver o problema está sendo usada para justificar por que ele não foi resolvido.

A gente aprende cedo a contar historinhas que explicam, com riqueza de detalhes, por que não avançamos. E quanto mais elaborada a desculpa, mais convincente ela fica — inclusive para quem a inventou.

A verdade explica o obstáculo. A desculpa te dá permissão para parar diante dele.O Poder do Recomeço, capítulo 6

A energia que a desculpa consome

Montar uma boa desculpa dá trabalho. Exige raciocínio, articulação, memória seletiva e uma certa habilidade narrativa. É esforço de sobra.

Só que aplicado em não fazer, em vez de em fazer. Essa é a parte cruel: não é que falte energia. A energia existe e está sendo gasta na direção contrária.

Se alguém cronometrasse o tempo dedicado a explicar por que algo não saiu e comparasse com o tempo que teria levado para fazer, o resultado seria constrangedor em boa parte dos casos.

Verdade e desculpa não são a mesma coisa

Aqui está a distinção que muda tudo, e ela é sutil. Algumas justificativas são verdadeiras. O mercado às vezes está difícil mesmo. O apoio realmente não veio. O prazo era mesmo impossível.

A diferença não está na veracidade. Está na função. A verdade explica o obstáculo e continua exigindo uma decisão sobre o que fazer a partir dali. A desculpa explica o obstáculo e te libera de agir.

Uma frase idêntica pode ser as duas coisas, dependendo do que vem depois dela. "Não tive apoio" seguido de "então vou buscar apoio de outro jeito" é verdade. "Não tive apoio", ponto final, é desculpa.

As três categorias

  • Desculpa de circunstância. "Não deu tempo", "o mercado tá difícil", "a crise atrapalhou". Terceiriza para o ambiente, que é o alvo mais seguro porque não se defende.
  • Desculpa de terceiros. "Não tive apoio", "a outra área não entregou", "meu chefe não deixou". Tem a vantagem de ser parcialmente verdadeira quase sempre.
  • Desculpa de identidade. "Eu não sou bom nisso", "não é o meu perfil", "eu sempre fui assim". É a mais perigosa, porque parece autoconhecimento e funciona como sentença permanente.

A terceira merece atenção especial. Ela encerra a conversa de forma definitiva, porque não se discute personalidade. E é a que mais se instala sem ser percebida — depois de repetida algumas vezes, vira fato para quem a diz.

O preço invisível

Cada desculpa que você aceita de si mesmo rebaixa um pouco o seu padrão. Não dramaticamente, não de uma vez. Um pouco.

E o efeito é cumulativo. Vira hábito. Até o dia em que justificar já é mais automático do que agir, e a pessoa nem percebe mais que está fazendo isso — porque a explicação vem antes do pensamento.

Esse é o ponto em que a desculpa deixa de ser um comportamento e vira um sistema operacional. E sistemas operacionais não se trocam com força de vontade num dia ruim.

O que o cérebro faz com a repetição

Existe um agravante neurológico. Uma desculpa repetida com frequência suficiente passa a ser processada como verdade. Não é hipocrisia: é o funcionamento normal da memória, que não distingue bem o que foi observado do que foi repetido.

Por isso a pessoa que diz há cinco anos que não tem tempo acredita sinceramente nisso, mesmo tendo tempo. A crença foi construída pela própria narrativa.

E por isso reconhecer a desculpa em voz alta tira metade do poder dela. A frase dita para outra pessoa, ou escrita, perde a fluidez confortável que tinha na cabeça.

Ownership é o oposto disso

Existe uma troca que reorganiza tudo e cabe em duas frases. Trocar "por isso não deu" por "o que eu faço a partir daqui".

A primeira frase te mantém parado com a consciência tranquila. Ela está correta, é defensável, e não produz nada. A segunda te move, mesmo desconfortável, mesmo sem garantia.

E vale registrar que o mercado paga pela segunda. Não por justiça — por utilidade. Quem entrega resultado em condição ruim é raro, e raridade tem preço.

Como trabalhar isso sem virar autocobrança

  1. Identifique a sua desculpa favorita. Todo mundo tem uma principal, repetida há anos, sobre algo específico que não anda.
  2. Escreva-a por extenso. Frase completa, com o objeto. "Eu não consigo X porque Y."
  3. Separe a parte verdadeira. Quase sempre existe uma, e reconhecê-la evita o autoengano oposto, que é fingir que nenhum obstáculo é real.
  4. Pergunte o que resta. Aceitando que Y é verdade, o que ainda é possível fazer em relação a X? Essa pergunta quase nunca tem resposta "nada".
  5. Faça a menor versão. Não o plano completo. O primeiro movimento, nesta semana.

A desculpa coletiva

Numa empresa, a desculpa ganha uma camada extra de proteção: ela vira consenso. Quando todo mundo repete a mesma explicação, ela deixa de parecer justificativa e passa a parecer diagnóstico.

"O mercado está difícil" dito por uma pessoa é uma opinião. Dito por uma área inteira, vira fato institucional — e a partir daí ninguém precisa mais explicar resultado ruim, porque a causa já foi estabelecida.

O teste que quebra isso é sempre o mesmo: existe alguém, no mesmo mercado e no mesmo período, indo bem? Se existe, a explicação coletiva é incompleta. Não necessariamente falsa — incompleta, o que é diferente e bem mais acionável.

E vale a franqueza: a liderança costuma ser a principal fonte da desculpa coletiva, porque é ela quem dá o tom na reunião. Um gestor que abre o mês explicando por que vai ser difícil acabou de autorizar toda a área a fazer o mesmo.

Para levar para a semana

Coragem: qual é a sua desculpa favorita? Aquela que você repete há tempo demais para justificar algo que não anda.

Escreva. Reconhecer a própria historinha em voz alta tira metade do poder dela — e a outra metade some quando você faz, nesta semana, a menor coisa possível na direção contrária.

E vale encerrar com uma distinção que protege contra o excesso oposto. Trocar desculpa por responsabilidade não significa assumir culpa por tudo. Existem coisas que realmente não dependem de você, e fingir que dependem produz uma carga injusta e igualmente improdutiva. O ponto não é carregar tudo: é separar com precisão o que é seu do que não é, e agir integralmente sobre a parte que é. Quem faz essa separação bem trabalha com menos culpa e mais resultado.

Para terminar, um detalhe sobre linguagem que muda a própria percepção. Repare na diferença entre "não deu tempo" e "eu escolhi priorizar outra coisa". As duas descrevem o mesmo fato. A primeira apresenta você como vítima de uma circunstância; a segunda, como alguém que decidiu. Trocar a formulação não resolve o problema, mas devolve a agência — e agência é pré-requisito para qualquer mudança. Quem se enxerga como vítima da agenda não reorganiza a agenda.

E vale o teste que encerra a discussão quando ela aparece na sua equipe: qual seria o primeiro passo se essa desculpa não existisse? Quase sempre existe uma resposta — e o fato de existir prova que a desculpa explicava o obstáculo sem impedir a ação.

Marcelo Bigardi · palestrante, treinador de liderança e autor de 34 livros

Este texto foi desenvolvido a partir de o livro O Poder do Recomeço, de Marcelo Bigardi.

Esse é o tipo de conversa que ele leva para dentro das empresas

Palestras, treinamento in company e mentorias sobre liderança, maturidade e mentalidade.