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Marcelo Bigardi Palestrante e treinador de liderança
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Subir até o nível dele ou torcer para ele cair até o seu

Liderança e equipe8 min de leitura Por Marcelo Bigardi

Existem apenas duas atitudes possíveis diante de alguém que está no degrau acima do seu. Só duas. A primeira é correr e subir até o nível dele. A segunda é torcer para ele cair até o seu.

A pergunta desconfortável é qual das duas você tem praticado — e ela é desconfortável porque a segunda raramente se apresenta como torcida contra. Ela se apresenta como aquele alívio discreto quando a notícia ruim sobre aquela pessoa chega, ou como a análise técnica muito bem fundamentada sobre por que o trabalho dela não é tão bom assim.

As pessoas se avaliam pelas próprias intenções, mas avaliam os outros pelas ações.Ambiência, capítulo 10

O mecanismo que garante que o outro sempre saia pior

Existe uma assimetria embutida na forma como a gente avalia. Cada um se julga pelas próprias intenções — eu quis ajudar, eu tentei, eu estava sobrecarregado — e julga os outros apenas pelas ações, que é tudo o que consegue ver.

Nessa assimetria, o outro sempre sai pior. Não por má-fé: por falta de dado. Você tem acesso ao seu contexto inteiro e apenas ao comportamento visível do colega. Comparar as duas coisas é comparar um relatório completo com uma foto.

Se cada pessoa se esforçasse um pouco para enxergar pela perspectiva do outro, boa parte dos conflitos relacionais dentro de uma operação desapareceria. Não por generosidade — por correção de método.

Onde a comparação vira competição interna

Comparação, sozinha, é quase inevitável. O problema começa quando ela vira competição — quando o sucesso de um passa a ser lido como perda do outro, dentro do mesmo time.

Os sinais são reconhecíveis por qualquer gestor atento:

  • Informação útil para de circular. Quem descobriu algo que funciona guarda, porque compartilhar reduz a própria vantagem relativa.
  • Erro passa a ser escondido, porque erro virou posição no ranking em vez de aprendizado do grupo.
  • Pedidos de ajuda somem. Pedir ajuda é admitir que não sabe, e admitir que não sabe custa posição.
  • O sucesso de alguém provoca silêncio em vez de celebração — e o silêncio é audível.
  • Aparecem coalizões. Duas ou três pessoas passam a operar como bloco, e a agenda do bloco nem sempre é a agenda da área.

Nenhum desses comportamentos é combatido com pedido de colaboração. Eles são racionais dentro de um sistema que premia posição relativa. Muda-se o sistema, não o discurso.

O erro mais comum de quem lidera

Há um tipo de comparação que causa mais estrago do que todos os outros: a que vem de quem lidera. Quando um gestor compara publicamente dois membros da equipe, ele acha que está estimulando. Na prática, está instalando o sistema inteiro descrito acima.

A diferença entre estimular e comparar está no referencial. "O João aumentou trinta por cento, e você?" compara pessoas. "Você estava em dez e está em doze — o que funcionou?" compara a pessoa com ela mesma.

A segunda pergunta produz método, porque obriga a identificar o que deu certo. A primeira produz ressentimento, porque a única resposta possível é uma justificativa.

Critério explícito é o melhor antídoto

Existe uma causa estrutural que quase sempre passa despercebida: a comparação dentro de um time raramente começa entre os pares. Começa na falta de clareza sobre o que leva alguém a ser reconhecido.

Onde ninguém sabe qual é o critério de promoção, todo mundo compara — porque comparar vira a única forma disponível de estimar a própria posição. É um comportamento de sobrevivência num ambiente opaco.

Tornar o critério explícito reduz comparação mais do que qualquer conversa sobre colaboração. Quando cada pessoa sabe o que precisa demonstrar para subir, a referência deixa de ser o colega e passa a ser a régua.

O que fazer com quem está no degrau acima

Do lado individual, a saída prática é converter a comparação em pergunta de método. Toda vez que o incômodo aparecer, force três perguntas concretas: o que essa pessoa fez que eu não fiz, quanto tempo levou, e do que ela abriu mão.

Na maioria das vezes, uma dessas três respostas dissolve a inveja sozinha — porque revela um preço que você não estava disposto a pagar. E isso transforma um sentimento difuso numa escolha consciente, que é bem mais fácil de administrar.

Quando nenhuma das três dissolve, a informação também é útil: significa que existe um caminho real ali, e que você acabou de encontrar um roteiro em vez de um concorrente.

A comparação contra a versão editada dos outros

Existe um agravante contemporâneo que merece registro. A comparação sempre existiu, mas nunca com esse volume de material disponível.

Hoje é possível comparar a própria rotina completa — com os dias ruins, as dúvidas, os atrasos e as contas — contra a versão editada da vida de centenas de pessoas, o dia inteiro, de graça e sem esforço.

Ninguém posta o não que levou. Ninguém posta o trimestre fraco, a proposta recusada ou a noite em que quase desistiu. O material disponível para comparação é, por construção, o melhor recorte de cada um. Comparar a sua íntegra com o melhor recorte alheio não é autocrítica: é erro de método.

Num time, isso se traduz em expectativas irreais sobre a própria trajetória. Profissionais de três anos de carreira se comparando com perfis que levaram quinze anos para chegar onde estão — e concluindo que estão atrasados.

Como o gestor pode reduzir a temperatura

Três práticas resolvem boa parte, e nenhuma delas é uma conversa sobre colaboração.

A primeira é tornar público o critério de reconhecimento. Escrito, específico, com exemplos. Onde há régua, a referência deixa de ser o colega.

A segunda é celebrar processo, não apenas resultado. Reconhecer quem ajudou outra pessoa a entregar comunica, sem discurso, o que vale naquele ambiente.

A terceira é individualizar o retorno. Comparar cada pessoa com a própria trajetória de doze meses atrás — o único comparativo honesto, porque é o único que parte do mesmo ponto de partida.

Para levar para a semana

Se você lidera, revise o último retorno que deu. Comparou a pessoa com outra ou com ela mesma? E responda com honestidade se o critério de reconhecimento da sua área está escrito em algum lugar ou mora apenas na sua cabeça.

Se você não lidera, identifique quem ocupa hoje o degrau acima do seu — e decida qual das duas atitudes você vai praticar. Porque a escolha está sendo feita de qualquer forma, com ou sem sua participação consciente.

E há um caso em que a comparação é saudável: quando ela vira referência. Olhar para quem está à frente e extrair método é aprendizado, não inveja. A diferença está no que você faz com a informação — se ela produz um plano, era referência; se produz apenas incômodo, era comparação.

Para fechar, um exercício de dois minutos. Escreva o nome de quem ocupa hoje o degrau acima do seu e, ao lado, três perguntas de método sobre como essa pessoa chegou lá. Se você não souber responder nenhuma, existe informação disponível que você nunca buscou — e buscá-la é mais produtivo do que qualquer hora gasta remoendo a distância entre vocês.

Há ainda um efeito de segunda ordem que costuma passar despercebido: a comparação não destrói apenas a relação entre quem compara e quem é comparado. Ela contamina quem assiste. Uma pessoa que observa o colega sendo exposto numa reunião aprende, sem que ninguém diga nada, qual é o risco de se destacar naquele ambiente — e passa a calibrar a própria entrega para não virar o próximo exemplo.

Marcelo Bigardi · palestrante, treinador de liderança e autor de 34 livros

Este texto foi desenvolvido a partir de o livro Ambiência, de Marcelo Bigardi.

Esse é o tipo de conversa que ele leva para dentro das empresas

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