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Marcelo Bigardi Palestrante e treinador de liderança
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86.400: o depósito que você recebe todo dia e que zera à meia-noite

Disciplina e rotina7 min de leitura Por Marcelo Bigardi

Imagine que todo dia, às seis da manhã, alguém deposita oitenta e seis mil e quatrocentos reais na sua conta. Com uma regra: não acumula. O que sobrar à meia-noite some, e no dia seguinte você recebe o mesmo valor de novo.

Ninguém deixaria esse dinheiro parado. É exatamente o que acontece com você: todo dia são 86.400 segundos, e o saldo zera.

Oportunidades só aceitam "agora" como resposta.Ambiência, capítulo 6

As três esferas do tempo

Existe uma classificação simples que resolve a maior parte dos problemas de agenda, e ela cabe em três palavras.

  • Importante — tem prazo, tem consequência e não gera estresse quando é feito no tempo certo. É o que constrói resultado.
  • Urgente — é o importante que você adiou. Todo urgente já foi importante algum dia; só mudou de nome quando a data chegou.
  • Circunstancial — não leva a lugar nenhum. Rolagem infinita, reunião sem pauta, conversa que se repete, vídeo que você nem lembra ter assistido.

A maior parte das pessoas acredita que o dia é dominado pelo importante. Quando medem, descobrem que é dominado pelo urgente, e que o urgente existe porque o importante foi adiado.

A armadilha do importante e urgente

Aqui está um detalhe que muda a leitura da própria agenda: quase nada é importante e urgente ao mesmo tempo.

Quando alguma coisa parece ser as duas, na maioria das vezes é estresse disfarçado de importância. Alguém criou uma urgência artificial, ou um adiamento antigo está cobrando juros agora.

Reconhecer isso tem um efeito prático imediato: reduz a quantidade de coisas que parecem exigir resposta imediata, e devolve espaço para decidir.

As três perguntas que revelam mais que qualquer teste

Existem três perguntas que dizem mais sobre a mentalidade de alguém do que qualquer avaliação de perfil: em que tipo de ambiente você vive, o que você faz no seu tempo livre, e quem são os seus amigos íntimos.

As três apontam para a mesma coisa. Porque a diferença entre quem você é hoje e quem você será daqui a cinco anos está, em boa medida, nas pessoas com quem você anda e nos livros que você lê.

E as três são decididas no uso do tempo — especialmente do tempo que parece sobrar, que é justamente o mais revelador.

Por que gestão de tempo falha

A maior parte das técnicas falha por atacar o sintoma. Aplicativo, lista, método de priorização: tudo isso ajuda quem já sabe o que é prioridade e atrapalha quem não sabe, porque organiza melhor a coisa errada.

Antes da técnica vem a decisão sobre direção. Sem ela, otimizar a agenda é aumentar a eficiência com que você se afasta do lugar certo.

Depois da direção, a técnica funciona — e funciona bem. Mas nessa ordem, nunca na inversa.

Onde o tempo realmente vaza

Quando as pessoas medem a própria semana pela primeira vez, a surpresa raramente é o excesso de trabalho. É a quantidade de tempo consumida em atividades que ninguém escolheu conscientemente.

Os maiores vazamentos são sempre os mesmos. Reunião sem pauta e sem decisão, que consome uma hora de cinco pessoas para produzir alinhamento que caberia num parágrafo. Troca de contexto: começar uma coisa, ser interrompido, voltar — e cada retomada custa minutos de reaquecimento que não são contabilizados.

E o maior de todos: o intervalo entre tarefas preenchido com tela. Cinco minutos aqui, três ali, dez depois do almoço. Individualmente são irrelevantes; somados, costumam passar de uma hora por dia.

Nenhum desses vazamentos é resolvido trabalhando mais. Todos são resolvidos decidindo antes: pauta obrigatória, blocos protegidos, celular fora do alcance durante o bloco.

O tempo dos outros também é seu problema

Existe uma dimensão que a discussão individual costuma ignorar. Numa empresa, boa parte do seu tempo é consumida por decisões de outras pessoas — e boa parte do tempo delas é consumida pelas suas.

Uma reunião de uma hora com oito pessoas custa oito horas da organização. Uma mensagem mal escrita que gera três trocas de esclarecimento custa quinze minutos de cada lado. Um relatório que ninguém lê custa o tempo de quem o produziu, toda semana, indefinidamente.

Por isso gestão de tempo, num nível de liderança, é menos sobre a própria agenda e mais sobre não desperdiçar a dos outros. É a economia mais rápida disponível e quase nunca é feita.

Um exercício direto: liste todas as reuniões recorrentes da sua área e a decisão que cada uma produz. As que não produzem decisão nenhuma podem virar um texto.

A pergunta do ambiente e dos amigos

As três perguntas que revelam mentalidade — em que ambiente você vive, o que faz no tempo livre, quem são seus amigos íntimos — não são retóricas. Elas descrevem onde os seus 86.400 segundos estão sendo aplicados quando ninguém está medindo.

E é justamente esse tempo, o que parece sobrar, que determina a distância entre quem você é hoje e quem você será daqui a cinco anos. O tempo de trabalho é relativamente parecido entre profissionais do mesmo nível. O tempo livre não é.

O tempo que você não controla

Vale reconhecer o limite do argumento. Existe gente com dois empregos, filho pequeno e deslocamento de duas horas por dia, para quem a conversa sobre priorização soa distante.

Para quem está nessa situação, a ideia de otimizar a agenda é quase ofensiva — não existe gordura para cortar. E é honesto dizer isso em vez de fingir que todo mundo tem as mesmas 86.400 disponíveis.

O que ainda se aplica, mesmo com margem estreita, é a direção. Quando sobram trinta minutos por dia em vez de três horas, a escolha sobre onde colocá-los importa mais, não menos.

E vale a nota inversa, para quem tem margem: a maioria das pessoas que diz não ter tempo tem, e descobre isso no primeiro exercício de classificação da semana. A diferença entre não ter tempo e não ter prioridade é grande, e só a medição revela em qual das duas alguém está.

Para levar para a semana

  1. Classifique a semana que passou: I de importante, U de urgente, C de circunstancial. Sem julgar, só marcando.
  2. Some. Se o circunstancial passar de vinte por cento, ali está a sua reserva de tempo — sem precisar trabalhar mais horas.
  3. Escolha um bloco de uma hora, na semana seguinte, protegido para o importante. Antes do e-mail, antes de qualquer coisa.
  4. Responda em silêncio as três perguntas. E marque as pessoas que são os seus amigos íntimos — elas precisam saber o peso que têm na sua história.

Você recebe 86.400 segundos por dia e o saldo zera à meia-noite. A pergunta não é se você está gastando. É onde.

Para fechar, vale a pergunta que reorganiza a semana mais do que qualquer método: o que aconteceria se você tratasse uma hora do seu dia com o mesmo cuidado com que trata mil reais? Ninguém gasta mil reais sem pensar, e quase todo mundo gasta uma hora sem perceber. A assimetria entre as duas coisas explica boa parte da distância entre o que as pessoas dizem que é importante e onde o tempo delas realmente vai.

E vale terminar com um alerta sobre a própria classificação. Circunstancial não é sinônimo de lazer. Descanso de verdade, tempo com quem você ama e atividades que restauram são importantes — estão na primeira categoria, não na terceira. Circunstancial é o que não descansa nem constrói: a rolagem automática, a reunião sem pauta, a discussão que não leva a lugar nenhum. Confundir lazer com desperdício produz culpa desnecessária e, pior, faz a pessoa cortar justamente o que sustentaria o ritmo.

Marcelo Bigardi · palestrante, treinador de liderança e autor de 34 livros

Este texto foi desenvolvido a partir de o livro Ambiência, de Marcelo Bigardi.

Esse é o tipo de conversa que ele leva para dentro das empresas

Palestras, treinamento in company e mentorias sobre liderança, maturidade e mentalidade.