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Marcelo Bigardi Palestrante e treinador de liderança
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O tamanho do seu problema é, quase sempre, uma questão de perspectiva

Mentalidade6 min de leitura Por Marcelo Bigardi

Doze homens espiaram a mesma terra. Dez voltaram falando de gigantes. Dois voltaram falando de leite e mel. Todos viram exatamente a mesma coisa, no mesmo dia, pelo mesmo tempo. A diferença estava na mente.

E a frase que os dez usaram entrega o mecanismo inteiro: "éramos como gafanhotos aos nossos próprios olhos". Repare na ordem. Primeiro aos próprios olhos. Antes de qualquer gigante diminuí-los, eles já tinham se diminuído.

O tamanho da pessoa importa mais do que o tamanho do problema.Mentoria Código do Extraordinário, aula 6

Problema e situação difícil não são a mesma coisa

Confundir os dois é uma das maiores fontes de esgotamento profissional. Problema é aquilo que tem solução — o que falta é encontrá-la. Situação difícil é aquilo que não depende de você e não tem solução disponível; o que existe é travessia.

Tratar uma situação difícil como problema gera frustração infinita, porque você busca solução onde não há. Tratar um problema como situação difícil gera passividade, porque você se resigna diante de algo que tinha saída.

A primeira pergunta diante de qualquer coisa que trava, portanto, não é "como resolvo". É "isso é resolvível ou é atravessável". Cada resposta pede uma postura diferente.

A janela do problema

Todo problema tem uma janela de tempo com duas características opostas. Ela é grande o suficiente para ser vista com antecedência, e pequena o suficiente para ser resolvida antes de virar crise.

O detalhe é que essas duas janelas raramente coincidem com a atenção de quem deveria agir. O problema é visível meses antes; a vontade de tratá-lo só aparece quando já não dá tempo. Um problema previsto vira oportunidade. Um problema negado vira crise.

Cenoura, ovo ou café

Há uma imagem antiga e eficiente. Três coisas vão para a mesma água fervente. A cenoura entra dura e sai mole: o ambiente a quebrou. O ovo entra mole e sai duro: o ambiente o endureceu. O café entra e transforma a água: o ambiente é que mudou.

Mesma temperatura, mesmo tempo, três resultados. A variável não foi a água.

Vale a pergunta aplicada ao seu último ano difícil. Você amoleceu, endureceu, ou mudou o ambiente ao redor? Nenhuma das três respostas é motivo de vergonha — mas só a terceira é uma escolha que pode ser repetida de propósito.

Por que a perspectiva muda o tamanho

Existe uma razão prática, e não apenas motivacional, para isso funcionar. O tamanho que você atribui a um problema determina quanto recurso você mobiliza contra ele.

Quem enxerga o obstáculo como intransponível aplica esforço simbólico — tenta um pouco para poder dizer que tentou. Quem enxerga o mesmo obstáculo como difícil, porém possível, aplica esforço real. E esforço real produz resultados que realimentam a percepção de possibilidade.

É um ciclo, e ele roda nos dois sentidos. Por isso a leitura inicial pesa tanto: ela decide qual dos dois ciclos vai começar.

A pessoa que subiu de nível vê outro mapa

Repare no que acontece quando alguém cresce profissionalmente. Os problemas que tiravam o sono há cinco anos hoje são despachados em dez minutos. Eles não diminuíram — a pessoa aumentou.

Essa é a notícia útil. Se o tamanho relativo do problema depende do tamanho de quem o encara, então trabalhar em si mesmo é uma forma legítima e eficaz de resolver problemas que hoje parecem grandes demais.

Um protocolo simples

  1. Escreva o problema em uma frase. Se não couber em uma frase, você tem vários problemas empilhados, não um.
  2. Classifique: resolvível ou atravessável.
  3. Se for resolvível, liste três soluções possíveis, mesmo as ruins. A lista existe para quebrar a sensação de beco sem saída.
  4. Se for atravessável, defina o que você pode controlar durante a travessia — ritmo, apoio, prazo de revisão.
  5. Marque uma data para reavaliar. Problema sem data de revisão vira convivência.

Como aumentar o seu tamanho

Se o tamanho relativo do problema depende do tamanho de quem o encara, então existe uma estratégia que quase ninguém usa: em vez de atacar o problema diretamente, aumentar a própria capacidade até que ele mude de categoria.

Isso não é evasão. É reconhecer que há problemas que não se resolvem com mais esforço na mesma direção. Eles se resolvem quando quem os enfrenta passa a ter repertório, rede ou estrutura que não tinha.

  • Repertório. Muito problema "insolúvel" já foi resolvido dezenas de vezes por outras pessoas. Quem nunca viu a solução acha que ela não existe.
  • Rede. A pergunta certa feita à pessoa certa encurta meses. E a maior parte das pessoas tem menos acesso do que imagina — não por falta de rede, mas por não perguntar.
  • Estrutura. Problema que se repete não é problema: é sistema mal desenhado. Resolver caso a caso é tratar sintoma para sempre.

A janela que ninguém aproveita

Vale voltar à ideia da janela. Todo problema é visível antes de ser urgente, e resolvível antes de ser crise. O intervalo entre os dois momentos costuma ser generoso.

O que consome esse intervalo não é falta de tempo. É negação. Enquanto o problema ainda é pequeno, tratá-lo parece exagero — e admitir que ele existe implica admitir que alguma decisão anterior foi errada. Então ele é deixado para depois, até que fique grande o suficiente para ser inegável, e pequeno demais em janela para ser bem resolvido.

É por isso que empresas maduras institucionalizam a revisão: não porque gostem de reunião, mas porque sabem que a negação é o comportamento padrão e precisa de um contrapeso agendado.

Uma nota sobre humildade

Reconhecer que o problema é grande demais para o seu tamanho atual não é derrota. É o diagnóstico que permite a única ação útil: buscar quem já resolveu, ou construir a capacidade que falta.

O que não funciona é fingir que o problema é pequeno enquanto ele cresce. Essa é a forma mais comum de transformar algo administrável em algo irreversível.

O gigante e o espelho

Antes de qualquer gigante te diminuir, você já tinha se diminuído aos seus próprios olhos. Essa é a ordem, e é nela que está a boa notícia: se o problema começa no espelho, a solução também começa ali — e o espelho é a única variável que você controla inteiramente.

Para aplicar nesta semana

Pegue o problema que mais está pesando e escreva em uma frase. Se não couber em uma frase, você tem vários problemas empilhados, e o primeiro trabalho é separá-los.

Classifique: resolvível ou atravessável. Se for resolvível, liste três saídas possíveis, mesmo as ruins — a lista existe para quebrar a sensação de beco sem saída, não para escolher agora. Se for atravessável, defina o que dá para controlar no caminho: ritmo, apoio, prazo de revisão.

Marque uma data no calendário para reavaliar. Problema sem data de revisão não é problema: virou convivência, e convivência não é decidida — é apenas aceita.

Por fim, uma advertência sobre o uso dessa ideia. Dizer a alguém que o problema dela é uma questão de perspectiva, no meio da dificuldade, é uma das coisas menos úteis que existem — soa como se a dor fosse invenção. Perspectiva é ferramenta para usar em si mesmo, ou para oferecer depois que a pessoa já foi ouvida. Nunca como resposta à primeira frase de quem está sofrendo.

Marcelo Bigardi · palestrante, treinador de liderança e autor de 34 livros

Este texto foi desenvolvido a partir de o livro O Astronauta, de Marcelo Bigardi.

Esse é o tipo de conversa que ele leva para dentro das empresas

Palestras, treinamento in company e mentorias sobre liderança, maturidade e mentalidade.